17 junho 2009

Profundidade

Profundidade ?

Meu mundo. De onde estou a partir ? Para quero ir ? Como chego lá ? Minha profundidade nada mais é do que a base de minha acção.

Neste exacto momento, 256.865 pessoas jogam Poker online, 7.724.843 ensinam crianças a escrever, 14.760 compõe melodias no piano e 941 meditam em silêncio contra a parede, estes ultimos são muito poucos....

Mais de 99% do mundo passa desapercebido, simplesmente porque estamos muito ocupados com nossos próprios dilemas. Somos escravos de nossas preferências (”gosto” e “não gosto”) e sequer lembramos como tais personagens se formaram ou quando assumiram o controle de nossa mente. Somos marxistas, benfiquistas e contra a pena de morte... Gostamos do Telerural, odiamos acordar cedo.

Essa fixação a certas referencias deixa-nos encapsulados e limitados a um número específico de acções, em contacto com uma quantidade muito pequena de seres e universos, incapazes de acessar outras práticas, modos de ser, sensações, emoções, visões.

Há um vasto mundo fora de nossa mente! Apenas um exemplo: Um amigo liga-me contando a sua mais recente aventura extra conjugal, fala-me de seu deslumbramento amoroso, ri alto ao descrever suas cenas.

Mas o que é mesmo uma aventura amorosa extra casamento? Em meu mundo actual, na pele congruente do homem que procuro ser, no verdadeiro walk the talk,. A ideia de algum deslumbramento amoroso com outra mulher que não a minha... não passa disso mesmo, uma ideia, uma fantasia, tão infantil como tantas outras. Mas perigosa se solta na mente, há procura de realidade.

Felizmente, meu horizonte do real termina antes. Minha realidade não tem espaço para isso.
A procura de sexo junto de outra, isto indica-me que algo não está bem. Prefiro ir á procura do como é que isto aconteceu, do que a solução rapida e por vezes tão facil dos braços de uma pessoa que procura tambem o quick fix emocional.

Alguém pode ser considerado superficial por não se aprofundar em nada, mas esse sentido convencional (focado no objecto) não é tão interessante quanto a ideia de superficialidade como sendo uma restrita espacialidade do sujeito.

Se prestarmos atenção no que estamos tentando expressar quando dizemos que alguém é superficial, veremos que criticamos o tamanho de seu mundo, não sua capacidade de análise. Isso explica por que existem pessoas extremamente profundas que são iletradas e pouco inteligentes.

A pergunta correta é: qual o tamanho do mundo em que você vive?Alan Wallace sempre recorre a essa frase de William James: “For the moment, what we attend to is reality”. Ou seja, nosso mundo é do tamanho do nosso foco de atenção.

É como se nossa consciência flutuasse por diferentes níveis de percepção que desvelam diferentes níveis de realidade (o que Ken Wilber chama de “centro de gravidade”).

“Macbeth exists, but not for my dog. Cells with DNA exist, but they can only be seen by subjects using microscopes [...] Nirvana exists, but not for a dualistic state of consciousness, and so on. Phenomena ex-ist, stand forth, or shine only for subjects who can enact and co-create them.” (Ken Wilber).

No entanto, isso não significa que nossa realidade sensorial é apenas uma alucinação, ou que carregamos um mapa mental com interpretações subjectivas de um universo exterior comum a todos. Essas duas visões são extremas: uma nega totalmente o mundo exterior, a outra afirma sua solidez com ingenuidade.

Uma visão mais interessante apenas acrescenta uma frase ao senso comum: nós estamos dentro do mundo tanto quanto o mundo está dentro de nós. Ora, quando nos relacionamos com alguém, de fato não estabelecemos contacto lá fora, mas com a pessoa que surge em nosso mundo, em nosso espaço sensorial.

Para testar essa ideia, passe uma semana se relacionando com a imagem de alguém em sua mente (lembrando as qualidades positivas, por exemplo). Depois, encontre essa pessoa e veja como a relação mudou, como a pessoa surgirá de outra forma. Se procurar as qualidades negativas, criará e se relacionará com um monstro – e a outra pessoa vai agir como tal! Se procurar as positivas, ela lhe parecerá muito mais simpática…

O outro nos constrói e é por nós construído. Se assim não fosse, nunca teríamos registos dos famosos casos de velhos amigos que de um dia para outro, se apaixonam loucamente.O outro talvez esteja mesmo dentro de nós e por isso conseguimos sentir o que ele sente, ver o que ele vê, ouvi-lo sem que ele fale.

Porém, como a origem das alegrias é sempre a mesma das complicações, temos aqui um grande problema! Se nosso mundo não tem espaço para o outro, a relação é impossível ainda que ele esteja bem à nossa frente. Ele vem com suas visões, acções, maneiras de agir, histórias, emoções, palavras, sons. Quanto disso tudo cabe em nossa percepção? Quando ele nasce para nós, ele está inteiro ou está com apenas 10% de si? Sem querer, mutilamos muita gente.

Não oferecemos vastos espaços emocionais e cognitivos para que outros possam se apresentar. Nosso ambiente é estreito demais para validar fenómenos de outros mundos.Enquanto muitas pessoas deixam 90% de si em casa porque sabem que não serão vistas se saírem completas aos encontros, existe também o processo inverso: o outro vê 1000% e mais algo!

Qualquer pessoa apaixonada conhece bem a sensação de expansão de mundo que ocorre apenas pela presença do parceiro. O outro aproxima-se e eu começo a ver o que antes não via. Isso ocorre porque nós não andamos todos em um só mundo. Nós andamos em mundos. Quando conhecemos alguém, somos iniciados em um universo completo de árvores, carros, ruas, pensamentos, janelas, barulhos.

O outro não vem só com dois olhos, uma boca, duas pernas e algumas ideias novas. Não, o outro vem, traz seu universo inteiro, coloca dentro de você e então, magicamente, você começa a ver novas coisas lá fora. Ele coloca uma lua que não tinha e a aquela lá longe no céu começa a parecer diferente. O universo dele também inclui uma nova pessoa igualzinha a você. É com essa pessoa que ele vai se relacionar quando se dirigir ao seu corpo.

Ele vai acolher, com um sorriso, 100% de tudo o que você é e já foi. Todos os erros, acertos, problemas e virtudes. E ainda vai deixar um longo espaço para você ser mais, existir mais. Um abraço no seu passado e uma condução para seu futuro. É assim que ele vai construir você.

De repente, você fará algo que nunca se imaginou fazendo, sentirá subtilezas nunca acessadas, ficará imerso em um fresco que lhe deixará renascido. De fato, você terá nascido de novo.No momento em que nascemos para alguém e renascemos para nós mesmos, um processo delicioso e cruel se inicia.

Começamos a compartilhar mundos e construir sensações, objectos, identidades ali dentro. Vemos filmes, costuramos histórias, recontamos nossa vida inteira (para que ela possa ganhar outras cores aos olhos do outro), coleccionamos orgasmos e compramos juntos uma máquina de lavar roupa. Sentimos que aquele novo personagem é, enfim, nosso verdadeiro eu! Tudo dentro do nosso mundo compartilhado. Angelical, inesquecível, apaixonante… até a crueldade aparecer. Basta um “chega! Não quero mais ficar nesta relação”. O outro nos abandona e se vai.

Mas ele não leva apenas seu corpo para fora do nosso mundo. Ele leva filmes, orgasmos e CDs. Ele leva nossa história de vida recontada e o universo inteiro no qual nós estávamos vivendo! Mais ainda: ele leva-nos embora de nós mesmos, destroçando nosso “verdadeiro self” que demoramos tanto para encontrar.

Mundos e identidades interpenetradas. Somos profundos ou superficiais na medida em que nos comportamos dentro desse processo de nascimentos e mortes. Nossa profundidade é o espaço que o universo tem para nos invadir com seus ruídos, com suas artes e movimentos. Nosso mundo interno tem as mesmas dimensões da realidade que surge aos nossos olhos. O mundo nos entrega exactamente aquilo que podemos abraçar.

No lugar em que você vive, quantas pessoas jogam Poker? Quantos meditam contra a parede? Qual a população total? Quantas pessoas estão tendo orgasmos agora? Quantas pessoas nascem completas, sem mutilações? Qual o tamanho do seu mundo?

Prática inicial:

O treino em profundidade pode ser dividido em duas camadas. Na primeira, trabalhamos com nossas identidades e mundos directamente, por dentro e por fora. Na segunda, ignoramos identidades e mundos e vamos directo à base.

A prática da primeira camada é a mais simples. Sabendo que o nosso mundo interior é precisamente o universo todo que aparece ao nosso redor, temos duas direcções possíveis para expandir nossos mundos. Para expandir nosso espaço interior, desbravamos todos os locais fora de casa: viajamos para outros estados e países, entramos em bares e casas, conhecemos pessoas diversas, conversamos com pacientes terminais, caminhamos pelas ruas e feiras de um bairro distante.

Para aumentar nosso mundo externo, exploramos nossa própria mente: ouvimos músicas, lemos todos os livros que encontramos, imergimos nas artes, aprendemos linguagens, construímos labirintos de pensamentos, decoramos pequenos poemas. Uma bela praia, a mente ganha vastidão. Um filme profundo, a realidade inteira muda. Como a causalidade é mútua, actuamos dentro para mudar fora, e fora para mudar dentro.

Por mais fascinante que seja o desbravamento de realidades interiores e exteriores, isso não tem fim! Chegará um momento em que a multiplicidade de experiências não mais conduzirá a um aprofundamento de nosso centro de gravidade.

O mundo se amplia, sim, e com ele nossa confusão e dispersão. A fonte autêntica de profundidade não é nenhuma experiência privilegiada, mas a própria fonte de experiências e mundos. Por mais amplo que nosso mundo possa ser, sempre terminaremos por mutilar outros seres. Para oferecer espaço a qualquer experiência, nosso centro de gravidade não pode estar vinculado a um mundo específico.

Temos de manter um pé dentro e outro fora do mundo.No treino em liberdade, a meditação ajuda a superar os automatismos e as respostas condicionadas. Da perspectiva da prática da profundidade, a meditação promove o fortalecimento de nossos pés em uma base anterior às complicações. Um homem profundo não está no mundo tanto quanto o mundo está nele.

Sua âncora é o próprio espaço. Livre de um mundo específico, ele pode habitar ou receber qualquer mundo. Pois é isso que acontece em qualquer relação: oferecemos nosso mundo enquanto gentilmente adentramos o mundo do outro.

Qual mundo você oferece às pessoas que conhece? Em qual mundo você as faz nascer? Em qual mundo elas convivem com você? Quais áreas dos outros você não consegue tocar? Um homem superficial vive em um mundo com 13 ou 14 pessoas, mais os jogadores da sua equipe de futebol. É só isso que ele tem a oferecer e é somente tais territórios que ele percorrerá nos outros.

Quando os pais de sua esposa morrem, o homem superficial não sabe bem o que dizer. Por outro lado, um homem profundo vive em um mundo com 6 triliões de seres. Se as coisas vão mal para ele, há mais de 5 triliões de seres com os quais se alegrar. Quando os pais de sua mulher morrem, esse homem tem ao seu lado todos os grandes sábios da humanidade.

Em sua mente, se encontram visões budistas e toltecas, existencialistas e spinozanas. Com sua simples presença, o homem profundo adiciona riqueza e vastidão a qualquer acontecimento. Quando o procuram, as pessoas não querem conselhos, elas querem apenas que o acontecido exista em um universo amplo.

Elas mesmos querem existir em tal universo profundo e por isso se apresentam a ele.Quanto mais profunda for sua base, mais eventos e seres poderá abraçar. Quando outros precisarem de sua ajuda, quanto maior seu mundo, mais saídas, novas identidades, esconderijos e abrigos você poderá proporcionar.Contemplação em três temposQue a prática comece agora. Colocamos Bach para tocar: Ária da Suite Nº 3 para Orquestra.

Uma versão diferente, seja no violoncelo, no violão ou na voz de Bobby McFerrin. Sentamos e respiramos pelo abdómen. Todo o nosso passado começa a passar como um filme na mente. O dia de ontem, meses atrás, nossa infância, cenas que nunca vamos lembrar, flashes do que não vivemos, o passado antes de nosso passado, as décadas, os séculos.

Viramos animais, células, átomos. Big Bang. Antes do Big Bang… Nossa mente contempla e inclui tudo. O passado desenrola em nosso espaço. Tudo é quase inexistente de tão límpido.A próxima música é de Wim Mertens: Struggle For Pleasure.

Agora é o presente que se mostra e se desfaz. Uma tensão entre movimentos rápidos e lentos faz surgir todas as imagens de nosso mundo actual: o pessoal do trabalho, a namorada, os amigos da Internet que você nunca viu, as guerras do outro lado do planeta, os actores da TV, sua família, seu vizinho que você não conhece. Você olha com olhos de extraterrestre para cada detalhe.

O movimento é frenético, nada permanece. Há apenas espaço… e música.A terceira contemplação acontece ao som de Lotus Feet ( com o grupo Shakti ou com Paco de Lúcia), de John McLaughlin. Nós já não estamos em um mundo. Como uma flor de lótus invertida, nossos pés se sustentam em uma espacialidade infinita e nossas mãos tocam todo o lixo do mundo.

Olhamos para todos os lados e os mundos seguem rodopiando dentro da mandala da confusão. Cada um com uma história de vida, amor e morte. Quando a música acaba, podemos continuar brincando de deuses da vastidão. Cada ser que passar por nós receberá um espaço no qual ele poderá se esticar inteiro, um vazio que pedirá para ele se descobrir assim também, pura abertura.

Nosso presente será em forma de novas visões, novos universos, linguagens, construções. Será em forma de poesia e vai encher de detalhes as experiências mais comuns. Ao agir a partir da base, ofereceremos densidade. Por não estarmos localizados em nenhum mundo específico, nosso pé pra fora concederá ares de mistério não só a nós como a tudo o que presenciarmos.

Mas nosso presente não será nada disso! Vamos nos abrir e deixar o outro entrar, inteiro. E vamos penetrar o outro por completo. Nosso presente será a profundidade desses dois mergulhos.....

Muito Obrigado pela vossa atenção !!!

Deveria ter sido fácil ler estas palavras, mas provalvelmente, não foi....


Hugo Sanina

1 comentário:

Teresa Amorim disse...

Hugo, parabéns pelo excelente texto. A sua abordagem foi tão boa que me deixou em estado de consciência externa da primeira a última linha do texto.
Um beijinho
Teresa